Há três lados em toda história. O meu, o seu e a verdade. E nenhum é falso. Memórias divididas servem a cada parte de forma diferente.
Robert Evans
Seduzir mulheres, executivos e platéias. Magnetizar segmentos tão distintos era tarefa cotidiana para o ator frustrado e produtor de cinema nada frustrado Robert Evans. OfÃcio que ocupava quase todas as 24 horas de seu dia. O tempo dispensado se revelou compensador: teve as companhias femininas que quis, deu gordos lucros a seus superiores e renovou o filme norte-americano, fazendo-o comunicar - com ousadia e verossimilhança - a novas fatias do público.
Evans surgiu para este signatário em pleno zapping na TV aberta numa noite de sexta-feira. Em imagens de arquivo bem-editadas, e memorável trilha sonora de época, o produtor era apresentado na cinebiografia “O Show Não Pode Parar” (The Kid Stays in The Picture”, 2002, EUA, 92 minutos). Na forma de um documentário narrado totalmente pelo próprio Evans, repassa-se não apenas seu legado fÃlmico, mas a consolidação de uma nova era, entre os anos 60 e 70, no cinema dos EUA.
Meio que já tinha ouvido falar de Robert Evans. Sabia que o papel de Dustin Hoffman no bacanÃssimo “Mera Coincidência” era uma caricatura do tal produtor (aliás, nos créditos de “O Show” Hoffman aparece imitando Evans). Achava, no entanto, que Evans era apenas um porra-louca alimentado pelo ciclo contracultural aspirado em terras americanas.
Bob Evans estava mais mais para um dândi com talento descomunal para persuadir. Não foi de outra forma que ele conseguiu, quase de uma hora para outra, apagar uma carreira discreta como ator e ex-vendedor de lingerie e passar a pilotar a criação de novos projetos na Paramount Pictures - empresa que amargava o nono lugar dentre os estúdios de Hollywood, esta imersa em crise geral devido à queda de renda dos filmes.
Ao tempo em que tirou da fossa a empregadora, Evans foi se tornando referência obrigatória nos caderninhos de telefone de senhoritas e senhoras de Los Angeles, embora fosse um workaholic inveterado.
Ele conciliou tanto hits de apelo popular - como “Love Story”, aquele da famigerada frase “amar é nunca ter que pedir perdão” - com pedras fundamentais do que se pode considerar cinema novo americano: “O Poderoso Chefão” (1972), “O Bebê de Rosemary” (1968) e “Chinatown” (1974).
Até ali, a bilheteria de Hollywood era garantida por musicais e dramas edificantes.
Seu estilo de trabalhar era não linear e imprevisÃvel. Se fundava em intuição apurada e ousadias. Desde dar carta branca a Roman Polanski - então apenas um desconhecido polonês - para dirigir “Rosemary”, a apostar as fichas num projeto como “Chinatown”, tido e havido como ininteligÃvel e infilmável em Hollywood.
Por Coppola, passou como um trator, após ter sido esnobado pelo diretor de origem italiana que imaginava à frente de “O Poderoso Chefão”. O copião inicial do épico mafioso foi implacavelmente detonado por Evans, que queria - pasmem - uma hora a mais de projeção no longa.
“Volte e me traga uma saga familiar!”, disparou.
A exigência e as idiossincrasias de Evans fizeram a diferença no cinema dos anos 70. Basta somar as indicações a Oscar, Globo de Ouro e outras premiações obtidas pelos filmes que idealizou, ao reconhecimento, amplo e atemporal, dado a essas obras.
Ia tudo muito bem com o garoto de ouro da indústria cinematográfica até afundar seu casamento com a bela Ali McGraw, estrela de “Love Story”. Lá pelos anos 80, cedeu a más influências e viciou-se em cocaÃna, chegando ao cúmulo de ter de fugir de uma clÃnica de reabilitação. Tudo isso é contado por ele, no documentário, como quem se reporta a um bom amigo.
Nos anos 90. ensaiou um ressurgimento, mas oscilou entre a bobagem e o descartável. Produziu filmes como “Invasão de privacidade”, “O Santo” e mais recentemente “Como Perder um Homem em 10 Dias”.
Ainda que sem o brilhantismo de outrora, Evans ficou para contar a história. Ficou na história. Além do que tornou muito melhor minha última noite de sexta-feira!