Archive for the ‘life’ Category

o dia em que são paulo virou meca

Quinta-feira, Março 1st, 2007
“Você vai pagar para sofrer”. A frase veio de uma boca amiga e, de brincadeira ou não, anunciava nuvens cor-de-chumbo no céu. Ia sair caro e não podia dar errado. Mas sofrer fazia parte do roteiro. Não aquele sofrimento linear, do tipo, ruim o tempo todo, beco sem saída. Mas aquele que você resiste a reconhecer em meio a sentimentos outros, sofrimento ressignificado em tanta coisa, lágrimas de não sei o quê - certamente não de sofrimento.

As viagens fazem isso com a gente, quando os lugares são como mitos para nós. A música pop que amamos também, quando quem toca é como um mito para nós.

Ousar juntar ambos foi o que fiz no último fim de semana. Era uma alma que pedia por uma dose gelada. De metrópole e de sentimento de mundo. Uma banda pop é ainda capaz de fazer sua parte nessa equação. O Coldplay foi.

Se eu dissesse alguma coisa, era capaz de Chris ouvir. Foto de Rafael RodriguesDizer o que se disse do quarteto - letras infantis para os anos 00, show previsível - parece piada para quem esteve lá. Éramos os primeiros no Brasil a ver o que não se vê todo dia: uma das bandas-emblema de nosso tempo abrir mão das férias para tocar tête-à-tête para um público do oco do mundo - ainda que estivéssemos em São Paulo - feito o nosso.

Eles não abriram mão do raio laser, resquício de turnê, mas deixaram na Grã-Bretanha natal a grã-finagem. Fizeram aquele show com uma certa cara de pub mesmo. Entrada restrita, e segurança, que ninguém é de ferro. O suficiente para criar a expectativa de algo maior. Naquela noite, o Coldplay não queria ser algo maior, mas que culpa temos em idolatrar os caras que fizeram canções como “Shiver”, “Trouble”, “What If”, “Green Eyes”, e uma penca de outras? Que não são “algo maior” - porque simplificam e edulcoram a vida -, mas sim ferramentas para que alcancemos alguma elevação (e aqui não falo do U2). Ah, e essa elevação acontece. Pode checar com umas duas mil capitas que me fizeram companhia na casa de shows Via Funchal, local do show dos caras.

O Via é meio oval, mas naquela noite se fez quadrado mágico. Cujos vértices soavam como “Clocks”, a síntese ideal do Coldplay enquanto banda de show, ou como “Yellow” e sua derramada declaração naïve. Cantadas como hinos, confortam a alma - e aí inclua a cota de sofrimento, why not? Bem capaz de que esse tipo de sentimento inspirasse homens a escreverem em paredes de caverna, num passado remoto. Sem a mesma intenção de perdurar por eras e eras, aqui deixo meu testemunho. Valeu a pena a viagem e a grana desembolsada. Que seja só uma vez na vida. Cada um tem a Meca que merece.

parede ilustrada

the fab four.

Nada yellow: o show, ufa, teve hits enfileirados. Foto de Rafael Rodrigues

lights will guide you home.

Acho que aqui estávamos em The Scientist (alô Wesdley). Foto de Rafael Rodrigues

joy inside my tears.

Então, esse sou eu, inebriado e teary-eyed. Foto de Luciana Andrade

de bem com a vida

Sexta-feira, Janeiro 19th, 2007
Registros dessa nossa internet de cada dia, no melhor estilo Que Jornalismo é Esse?
oetker.jpg
Depois do Miojo! Como assim?
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Se o bem e o mal existem… :)

Emptiness is not for me

Sábado, Janeiro 13th, 2007
Dois pés na areia. Contemplativos, mas também agentes de renovação. Dançam conforme a música. Vila nova, vida nova. Nem que por apenas dias.
Dedicado a Fernanda Oliveira.

’til you wise up

Domingo, Janeiro 7th, 2007
Sempre fui um cara meio “editorializado”: na faculdade de jornalismo, era um daqueles que, em meio ao restante da turma, conseguia se expor com alguma desenvoltura em artigos, resenhas, colunas - enfim, ter opinião era comigo mesmo, desde que a condição fosse linearizá-la numa folha de papel.

Passou o tempo e aquele conselho da canção de Aimee Mann - wise up, tipo, amadureça ou sofra mais -, deve ter ficado guardado junto aos arquivos do terceiro semestre da graduação. Deveria ter ocorrido num pulo a transferências dessa aptidão retórica do papel para a oralidade, para um convívio cotidiano no qual opiniões costumam impressionar.

Qual nada. Me descobri como um tipo que mais escuta do que propriamente tem uma opinião. Na hora de expressar-me, embaraço. Hesitação. A melhor constatação, o melhor link, sempre surge minutos, dias depois. Minha memória jamais me ajuda nessas horas. Seja ao discutir com a família a reforma da casa; ao falar de um artista qualquer com um amigo no MSN; ao ter que se explicar quanto a um determinado gosto para um outro colega.

Concordar com o outro parece ser o mais cômodo nessas horas, ainda que denote uma determinada fadiga (ou desinteresse) argumentativa.

Seria tudo muito fácil se não surgisse a questão: será que a postura de gente como eu acabou por criar monstros? No melhor script “Efeito Borboleta” - cuja premissa é a de que o bater de asas de uma borboleta vai provocar algo efusivamente mais estrondoso mais adiante -, penso se o gesto de calar perante o outro passa por assentimento, concordância plena, adesão. Que dá cabimento a jorros cada vez maiores de teorias, opiniões, certezas. Resvalando em presunções de verdade.

Escuto tudo com a maior atenção, possivelmente com alguma inveja pela capacidade de articulação de idéias. Mas um pouco aliviado por não ser, naquele momento, o pólo incapaz de mudar de conceitos. Sim, o pouco de vida que vivi tem me feito constatar: opinião demais parece ser barreira ao novo. Ao outro, em último caso.

Daí porque meu déficit de memória me tem sido conveniente em certos casos. Contestar a ouvidos moucos me parece perder tempo.

Enfim. É claro que não chegarei a conclusão nenhuma aqui, sobre quem está certo ou errado. Por razões óbvias. Se tiver o privilégio, um dia pedirei pessoalmente desculpas à Aimee Mann por seguir tangenciando o mandamento do wise up. Bem longe de todos aqueles que insistem em ter sempre uma opinião a sacar do bolso.

;)

Só para registro, eis minha primeira visão de 2007. Jericoacoara, alto da duna.

Eu não sou cachorro não

Sábado, Dezembro 16th, 2006

God Knows - El Perro Del Mar

Essa está na galeria das canções que assovio imaginariamente, entre um e outro problema de trabalho.

(…)

Embora o título desse post diga respeito à atração acima, devo dizer, a título de registro, que conheci Waldick Soriano pessoalmente. Situação de trabalho, uma entrevista para uma série sobre “brega”. Dá pra dizer que foi gratificante. Embora sem o terno preto e fatigado pelos anos, ele deu show. Estava contrariado por uma recente matéria da Record que julgou mal editada. Esculhambou. Mas, com um pouco de insistência, contou e cantou. E me fez deixar no caminho alguns estereótipos.

O mito e eu: como manter a dignidade aos 73

É bem provável que a série sobre “brega” se torne uma série sobre gente “autêntica”.

Perda filosofal

Quarta-feira, Novembro 29th, 2006
Nos bancos noturnos de um curso de especialização:

- As pessoas não têm tempo pra ler.
- E as pessoas têm tempo pra quê, mesmo?
- Para pensar que não têm tempo.

Segue a aula sobre a noção de perspectiva na Renascença.

Por exclusão (ou minhas escolhas falam por mim)

Segunda-feira, Novembro 27th, 2006

Anos 80? Não, anos 90.
Belle & Sebastian fase antiga? Não, dois últimos discos.
Agatha Christie? Não, Patricia Highsmith.
Ônibus? Não, táxi.
Caranguejo, à noite? Não, camarão e de dia.
Orkut? Não, blog.
O.C.? Não, Monk (De O.C. fico com a trilha).
IExplorer e Outlook? Não, Firefox e Thunderbird.
Word? Não, Notepad.
Lentes de contato? Não, visão perfeita (ainda é sonho).
O Exorcista? Não, A Profecia.
Amelie Poulain? Não, Eterno Amor (brincadeira, mas pra mim ambos empatam).
Presunto? Não, peito de peru.
Vender as férias? Não, pé na estrada!
Cinema à noite? Não, de manhã mesmo.
C&A? Não, Redley e Damyller, at least.
Jornal? Não, revista.
Bizz? Sim… Não… Rolling Stone? Dessa eu me abstenho, por hora.
Jeri? Não, Gijoca mesmo (se bem que são tão perto…).
Guaramiranga? Não, Pacoti.
Espanhol? Não, francês.
Emule? Não Emule e Soulseek e BitTorrent (a este último fui convertido pelo Marcinho).
Anna Wintour? Não, Miranda Priestley.

Mas…

Meryl Streep? Não, Ellen Burstyn.

(…)

O supremo que não cabe na tela

Domingo, Novembro 19th, 2006
Brasilândia e Detroit: mais próximas do que se imagina

Temos nossas Supremes, Garotas cantoras, afinadas, com jogo de cintura para mais do que um número de dança. Negras, periféricas, foram parar no cinema por obra e graça da cineasta Tata Amaral (Um Céu de Estrelas). Antes, contudo, ganham teaser na maior de nossas emissoras de tevê, numa microssérie levantada por ninguém menos que Fernando Meirelles (Cidade de Deus).

Justiça seja feita. Antônia, a tal série, chocou geral com seu apuro técnico, boas interpretações (de não-atrizes, incluindo aí a cantora Sandra de Sá) e um roteiro esperto.Com esse trailer de luxo, Antônia deve fazer boa carreira nas telas.

Sucesso equivalente se espera de um filme com pano de fundo idêntico. Girl power, eqüidade racial e ascenção social, tais quais mantras universais, aparecem também em Dreamgirls, filme que marca a estréia da cantora Beyoncé Knowles como protagonista no cinema.

Numa periferia de Detroit, nos EUA, três garotas fazem o mesmo percurso em busca de um lugar na ribalta. Lá como cá, essa história também foi apropriada, por gigantes do audiovisual, e em breve estréia sob a batuta de Bill Condon (Kinsey - Vamos Falar de Sexo).

A cantora coloca sua tanajurice a serviço de uma caracterização de uma Diana Ross fictícia, e suas partners in crime do grupo Supremes.

A derrière de Beyoncé traz outro dado importante. Periferia é glamour. Aqui e lá. Regina Casé descobriu isso cedo e hoje, estágio avançado, mapeia as periferias do mundo em busca da essência do ser pobre e assalariado. Já reparou que, num esboço do que seria essa substância, sempre há sorrisos no rosto, música, festa e irreverência, ainda que a existência miserável suba pelas canelas em forma de doenças e necessidades?

Glamour e anteparo estético, em última instância. A periferia, contudo, clama por muito mais. Entender essa complexidade é carência até mesmo em produções como Antônia, cuja bacanice é patrocinada por terceiros, por olhos providos de consciência social mas externos àquela(s) realidade(s).

Bem intencionados, demais até, talvez por isso omissos a alguns aspectos, práticas, comportamentos que recompõem esse personagem meio sem rosto - o morador de periferia. Nem tudo cabe na ilha de edição, na p&b bacana e na estética de videoclipe.

Espera-se caber mais nas cabeças realizadoras de nosso cinema e tevê, ao menos. As mesmas que pagam colégio aos não-atores que recrutam para suas produções, por desencargo de consciência.

Jamais donos de suas próprias histórias, esses seres plurais ainda não ganharam sua tradução definitva. Ou ao menos a própria tradução. Que os olhares sobre essas pessoas - ainda que sejam aqueles da classe média encastelada em edifícios - ajudem a lhes dar a autonomia necessária para a escrita, de próprio punho, desses registros.

“Antônia brilha…”. Première no Fantástico (com perdão por Glória Maria)

“All you have to do is dream”, trailer de Dreamgirls

La mala dicción

Domingo, Novembro 5th, 2006
Morrer de rir.

Ao telefone:

- Pois é, no sábado eu fui pro cinema…
- Foi ver o quê?
- Volver
- Ah, tu ainda vai ver?…
- Putz…

Lato sensu

Quarta-feira, Novembro 1st, 2006

Toda uma gerência de pessoas na perspectiva do clima gerencial e organizacional.Feliz de quem está por trás da paleta de cursos de especialização e mestrado profissional à disposição em todo lugar. Só eles mesmo pra darem conta do trânsito louco de informação - sobre a vida, sobre tudo - que circula por aí. E fazer disso algo vendável.

Confesso que me deixei seduzir. Curso uma singela pós em Teorias da Comunicação e da Imagem, como poderia estar - caso tivesse me graduado em outra área qualquer - pagando para estudar Gerenciamento Hoteleiro Emergencial com Ênfase em Processos Organizacionais Voltados à Otimização de Estoques de Colchas de Cama.

O que não é a multiplicidade de conhecimentos repassáveis, não é mesmo, minha gente?

Um dos nossos darlings nos bancos da universidade, o Anthony Giddens, se deleitaria em responder. “Num mundo guiado por sistemas peritos, urge o aparecimento de discursos de autoridade”, algo assim ele balbuciaria.

Ou seja, pra cada novo conceito sobre uma área qualquer da atuação humana - bolado por quem, dio mio? - um novo curso, de preferência carimbado pelo MEC, para explicá-lo.

É quando ingressamos no delicioso e cruel universo das expressões de domínio restrito. Nos último dias, me choquei tentando assimilar a melhor aplicabilidade da logística de interiores, fui alertado sobre o boom do gerenciamento de catástrofes e, por fim, dei-me conta do atraso de vida que é não saber que o hype mesmo é o tal mile high club - essa última, nada mais nada menos que a famosa “rapidinha” num avião.

O território do prazer também virou espaço de catalogação. Demora nada e estudaremos isso na faculdade.

É muita informação pra mim. É já que me matriculo numa reciclagem em gerenciamento de catástrofes. ;)