Archive for Março, 2007

Nota pé é com eles

Quinta-feira, Março 29th, 2007
Caras-metade em nome da informação - e de seu oposto também

Está cada vez melhor assistir ao Jornal Hoje. Quem primeiro se deu conta disso foi a minha amiga Fernanda, ao se deparar com o bizarro colóquio entre Sandra Annenberg e Evaristo Costa a respeito das desventuras de um urubu no estressado espaço aéreo nacional. Segue o relato da tia Fernanda:

NA TV I - Foi muito bom assistir ao jornal Hoje nesta quarta-feira (N.R.: 21 de março). Deu pra rir um bocado. A primeira notícia falava sobre um urubu que bateu em um avião aonde estavam algumas autoridades. No final da matéria, a repórter dizia algo como “ninguém saiu ferido”. Quando voltou para os apresentadores, o Evaristo Costa olhou para a Sandra Anneberg e perguntou no maior tom de brincadeira: “Será que ninguém se feriu realmente? Nem o urubu?”. Aí a Sandra: “Não, se feriu não. Ele morreu mesmo”. Foi muito bom!

Passei a prestar mais atenção depois dessa, mesmo pensando que estava a par de todo o fel vertido pelo casal qualquer nota das bancadas globais. Qual nada. No dia seguinte, sob todo o alarme global suscitado pelo Dia Mundial da �gua, Annenberg inventou de ser infame, após um VT que demonstrava todo o descaso do brasileiro pela economia dos recursos hídricos. Pois bem, após relatos de desperdício e números desanimadores, lá veio ela:

- Pois é Evaristo, eu sei que é chover no molhado, mas é importante poupar água…

Horror! Já já ela é varrida para o posto de garota do tempo! E o Evaristo, como sempre, concordou, sempre daquele jeito meio malvado de quem sabe que, no fundo, está frescando com a cara do espectador.

O Homer Simpson aqui até que gostou.

rosana nas alturas

Quarta-feira, Março 21st, 2007
E quem sobreviveu, que conte. Ela esteve lá, botox e calça Gang em dia, a serviço da libido coletiva e incontida. Aos que a chamaram de “travestizão”, Rosana respondeu com beijo arremessado e cumprimentos.

Nesse momento Lady Lu da carreira, ela ousou com versões de Jackson 5 e uma mini-cover de Pussycat Dolls, em plena festa brega! Mas ela ainda atende a audiência: ela foi mantida como deusa duas vezes durante o show. Hiperbólica, obsessiva, umedecida: ela foi isso e mais.

Power trio

Quarta-feira, Março 21st, 2007
… e, neste mundo, sempre prevalece a atitude, o empreendedorismo e um olhar visionário, um diferencial de mercado. E também o uso apropriado do ábaco como ferramenta matemática de precisão.

Senão, vejamos este exemplo de generosidade materna, eternizada após o sempre oportuno chamado da numerologia.

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Sim, ela está perto de nós. Será ela Shiva reencarnada, em pleno Conjunto Ceará? Enfatize-se que, para conquistá-la, o candidato tem de andar sob a chaga ardente que leva até a redenção, cujo ápice se vê de dentro de um Audi A4. A moça pode até não soletrar o próprio nome, mas certamente sabe dizer Chrysler e Cïtroen.

Por via das dúvidas, é sempre bom esperar o tal “homem independente” com o melhor modelito. Dando o exemplo às pequenas moças de família, está esta não menos amável boneca, que faz do estilo uma obsessão, levada às raias do pleonasmo. Um plus a mais que causa inveja às coleguinhas de prateleira menos formosas (vide foto-flagra).

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Agora faça as contas, e sinta justificada toda a teoria de que, sim, George Martin era o quinto beatle.

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São Paulo cabe numa sílaba

Domingo, Março 11th, 2007
O labirinto de Pan. Tanto faz se o deus a que se atribui a palavra pânico ou o prefixo do qual surge a idéia da totalidade, da união entre partes de um uno. Cidade polissêmica por excelência, São Paulo parece caber na miudeza dessas três letrinhas. A cidade permanece, tal fio condutor, tensamente estendida entre aqueles dois pólos significantes. Ela é tudo, e (por tabela), é medo.
Right to freedom.

Não que, em apenas três dias batendo perna por lá, eu tenha avançado muito nos meandros desse labirinto. Sabe-se da sua condição e intui-se seu tamanho por ouvir falar. Guias explicativos, orais e impressos, intermináveis páginas. O que ver, o que comer, o que fotografar, o que ouvir, o que comprar. Nunca aos punhados, sempre aos milhares.

Porém, até que se tenha a exata noção do que é, e do que não é, esse pequeno país chamado São Paulo, haja mapa, livreto e placa.

Labirinto, sim. Mas decifrável. Não fosse assim, não seria destino certo de milhares em busca de escalar suas paredes. Em busca de um lugar à garoa. Distâncias sempre grandes é o que se impõe entre o desbravador e as delícias da cidade. O que dizer de um lugar que singelamente nomeia de “ruas” vias urbanas com seis ou oito faixas de rolamento - e igual quantidade de minutos para atravessá-la? Ou que ergueu templos, em época remota, tão assustadoramente gigantescos para os padrões atuais?

Mas, ainda assim, São Paulo cabe numa sílaba.

Que ganhamos a capacidade de pronunciar a cada vez que ousamos enfrentá-la. Antes Sem perigo na esquina.que se pense numa batalha épica, vale registrar que, como metrópole do mundo que se pretende, São Paulo é feita de serviços, sinais, acessos e corrimãos. Tenta se auto-explicar na sua superfície. Daí porque ir de um extremo a outro da town não é uma guerra. O desafio é não perder nenhuma imagem, nenhum som, nenhuma novidade.

Tomie Ohtake exposto no metrô, a propaganda de revista no alto do prédio, a entrada do Trianon - mais parecendo Parque das Crianças -, as cabines telefônicas sussurrando convites à libido, a melhor banca do Stand Center, os melhores souvenirs da liberdade, o melhor bar da Vila Madalena, o melhor box do Mercado, o melhor café, o melhor sorvete, o melhor passeio, o melhor guarda-chuva.

A busca do melhor é a obsessão da verdadeira capital do Brasil - e de quem nela está. A impossibilidade de consegui-lo é provável motivo de frustração. Esqueça-a. Não dizem que melhor que o fim do caminho, é a caminhada que o precede? Pois nunca uma jornada foi tão prazerosa quanto a que separa a primeira e a última letra daquela sílaba-ícone em que São Paulo parece se encaixar à perfeição.

Dedicado a Filipe Palácio e Naiana Rodrigues, meus companheiros nessa viagem.

Team: Filipe, Rafael e Naiana.

Mudanças na vida da gente

Domingo, Março 11th, 2007
Tive o prazer de receber dos meus amigos da Eletrocactus o EP Ver Viajar, com seis canções do grupo. Na capa, uma singela foto feita por mim quando ainda tínhamos um viçoso pé de maracujá em nosso quintal. Hoje quimera, o (bendito) fruto está eternizado em verso e tinta.

Meu agradecimento é virtual, mas vai sincero como a vida daquela flor. Ela morreu, quem sabe para que me descobrisse dono de algum olhar apto à perenidade.

a capa.

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rox

Domingo, Março 11th, 2007

Tutti-fruti

Quarta-feira, Março 7th, 2007
E depois do arrasa-quarteirão chamado Coldplay, o próximo show será o de ninguém menos que Rosana. Botox para superar a emoção.

(trilha incidental: ambiências eletrônicas do início de “O Amor e o Poder”, remix)

O que é a tarefa de se manter um padrão de entretenimento, não é mesmo?

Contextualizando o momento histórico em que Rosana pontificava em auditórios como o de Chacrinha, um souvenir de época:

nothing else compares

Domingo, Março 4th, 2007

Clocks, Clocks, Clocks! Sempre na hora certa. Me perguntava sempre - após comprar passagens e ingresso - se o tal show “intimista” do Coldplay iria deixar de lado os truques de palco que deram fama às turnês dos caras. O principal deles é esse bendito raio laser. Para mim, a conjunção de “Clocks” e esse arranjo cênico é em muito responsável por aquele “sentimento de mundo” a que me referi um post abaixo. Uma canção para que constatemos o quanto o mundo é vasto, e o quanto a vida passa depressa. Essas constatações que devemos fazer vez ou outra na vida, sabe?

Felizmente, pude me sentir “parte do plano” - ou “parte da doença” -, como o Coldplay gosta de dizer nas canções. Tipo, algo maior. Não mais um Carnaval, ou mais um feriado bacana. Algo além do bacana, do ordinary. Como se o céu fosse mesmo o limite. Numa situação assim, cada detalhe parece ganhar algo de transcendência. Desde as etapas vencidas no transporte público até a chegada à casa de shows, à camiseta comprada na porta, as fotos-registro continuamente visualizadas, dias, meses depois. Conversas numa mesa de restaurante, com gente desconhecida, em uma sintonia só alcançada por quem está eufórico. Ear-phoria. Play it again, Chris.

o dia em que são paulo virou meca

Quinta-feira, Março 1st, 2007
“Você vai pagar para sofrer”. A frase veio de uma boca amiga e, de brincadeira ou não, anunciava nuvens cor-de-chumbo no céu. Ia sair caro e não podia dar errado. Mas sofrer fazia parte do roteiro. Não aquele sofrimento linear, do tipo, ruim o tempo todo, beco sem saída. Mas aquele que você resiste a reconhecer em meio a sentimentos outros, sofrimento ressignificado em tanta coisa, lágrimas de não sei o quê - certamente não só de sofrimento.

As viagens fazem isso com a gente, quando os lugares são como mitos para nós. A música pop que amamos também, quando quem toca é como um mito para nós.

Ousar juntar ambos foi o que fiz no último fim de semana. Era uma alma que pedia por uma dose gelada. De metrópole e de sentimento de mundo. Uma banda pop é ainda capaz de fazer sua parte nessa equação. O Coldplay foi.

Se eu dissesse alguma coisa, era capaz de Chris ouvir. Foto de Rafael RodriguesDizer o que se disse do quarteto - letras infantis para os anos 00, show previsível - parece piada para quem esteve lá. Éramos os primeiros no Brasil a ver o que não se vê todo dia: uma das bandas-emblema de nosso tempo abrir mão das férias para tocar tête-à-tête para um público do oco do mundo - ainda que estivéssemos em São Paulo - feito o nosso.

Eles não abriram mão do raio laser, resquício de turnê, mas deixaram na Grã-Bretanha natal a grã-finagem. Fizeram aquele show com uma certa cara de pub mesmo. Entrada restrita, e segurança, que ninguém é de ferro. O suficiente para criar a expectativa de algo maior. Naquela noite, o Coldplay não queria ser algo maior, mas que culpa temos em idolatrar os caras que fizeram canções como “Shiver”, “Trouble”, “What If”, “Green Eyes”, e uma penca de outras? Que não são “algo maior” - porque simplificam e edulcoram a vida -, mas sim ferramentas para que alcancemos alguma elevação (e aqui não falo do U2). Ah, e essa elevação acontece. Pode checar com umas duas mil capitas que me fizeram companhia na casa de shows Via Funchal, local do show dos caras.

O Via é meio oval, mas naquela noite se fez quadrado mágico. Cujos vértices soavam como “Clocks”, a síntese ideal do Coldplay enquanto banda de show, ou como “Yellow” e sua derramada declaração naïve. Cantadas como hinos, confortam a alma - e aí inclua a cota de sofrimento, why not? Bem capaz de que esse tipo de sentimento inspirasse homens a escreverem em paredes de caverna, num passado remoto. Sem a mesma intenção de perdurar por eras e eras, aqui deixo meu testemunho. Valeu a pena a viagem e a grana desembolsada. Que seja só uma vez na vida. Cada um tem a Meca que merece.

parede ilustrada

the fab four.

Nada yellow: o show, ufa, teve hits enfileirados. Foto de Rafael Rodrigues

lights will guide you home.

Acho que aqui estávamos em The Scientist (alô Wesdley). Foto de Rafael Rodrigues

joy inside my tears.

Então, esse sou eu, inebriado e teary-eyed. Foto de Luciana Andrade