Perda filosofal
Quarta-feira, Novembro 29th, 2006- As pessoas não têm tempo pra ler.
- E as pessoas têm tempo pra quê, mesmo?
- Para pensar que não têm tempo.
Segue a aula sobre a noção de perspectiva na Renascença.
- As pessoas não têm tempo pra ler.
- E as pessoas têm tempo pra quê, mesmo?
- Para pensar que não têm tempo.
Segue a aula sobre a noção de perspectiva na Renascença.
Anos 80? Não, anos 90.
Belle & Sebastian fase antiga? Não, dois últimos discos.
Agatha Christie? Não, Patricia Highsmith.
Ônibus? Não, táxi.
Caranguejo, à noite? Não, camarão e de dia.
Orkut? Não, blog.
O.C.? Não, Monk (De O.C. fico com a trilha).
IExplorer e Outlook? Não, Firefox e Thunderbird.
Word? Não, Notepad.
Lentes de contato? Não, visão perfeita (ainda é sonho).
O Exorcista? Não, A Profecia.
Amelie Poulain? Não, Eterno Amor (brincadeira, mas pra mim ambos empatam).
Presunto? Não, peito de peru.
Vender as férias? Não, pé na estrada!
Cinema à noite? Não, de manhã mesmo.
C&A? Não, Redley e Damyller, at least.
Jornal? Não, revista.
Bizz? Sim… Não… Rolling Stone? Dessa eu me abstenho, por hora.
Jeri? Não, Gijoca mesmo (se bem que são tão perto…).
Guaramiranga? Não, Pacoti.
Espanhol? Não, francês.
Emule? Não Emule e Soulseek e BitTorrent (a este último fui convertido pelo Marcinho).
Anna Wintour? Não, Miranda Priestley.
Mas…
Meryl Streep? Não, Ellen Burstyn.
(…)

Temos nossas Supremes, Garotas cantoras, afinadas, com jogo de cintura para mais do que um número de dança. Negras, periféricas, foram parar no cinema por obra e graça da cineasta Tata Amaral (Um Céu de Estrelas). Antes, contudo, ganham teaser na maior de nossas emissoras de tevê, numa microssérie levantada por ninguém menos que Fernando Meirelles (Cidade de Deus).
Justiça seja feita. Antônia, a tal série, chocou geral com seu apuro técnico, boas interpretações (de não-atrizes, incluindo aí a cantora Sandra de Sá) e um roteiro esperto.Com esse trailer de luxo, Antônia deve fazer boa carreira nas telas.
Sucesso equivalente se espera de um filme com pano de fundo idêntico. Girl power, eqüidade racial e ascenção social, tais quais mantras universais, aparecem também em Dreamgirls, filme que marca a estréia da cantora Beyoncé Knowles como protagonista no cinema.
Numa periferia de Detroit, nos EUA, três garotas fazem o mesmo percurso em busca de um lugar na ribalta. Lá como cá, essa história também foi apropriada, por gigantes do audiovisual, e em breve estréia sob a batuta de Bill Condon (Kinsey - Vamos Falar de Sexo).
A cantora coloca sua tanajurice a serviço de uma caracterização de uma Diana Ross fictícia, e suas partners in crime do grupo Supremes.
A derrière de Beyoncé traz outro dado importante. Periferia é glamour. Aqui e lá. Regina Casé descobriu isso cedo e hoje, estágio avançado, mapeia as periferias do mundo em busca da essência do ser pobre e assalariado. Já reparou que, num esboço do que seria essa substância, sempre há sorrisos no rosto, música, festa e irreverência, ainda que a existência miserável suba pelas canelas em forma de doenças e necessidades?
Glamour e anteparo estético, em última instância. A periferia, contudo, clama por muito mais. Entender essa complexidade é carência até mesmo em produções como Antônia, cuja bacanice é patrocinada por terceiros, por olhos providos de consciência social mas externos àquela(s) realidade(s).
Bem intencionados, demais até, talvez por isso omissos a alguns aspectos, práticas, comportamentos que recompõem esse personagem meio sem rosto - o morador de periferia. Nem tudo cabe na ilha de edição, na p&b bacana e na estética de videoclipe.
Espera-se caber mais nas cabeças realizadoras de nosso cinema e tevê, ao menos. As mesmas que pagam colégio aos não-atores que recrutam para suas produções, por desencargo de consciência.
Jamais donos de suas próprias histórias, esses seres plurais ainda não ganharam sua tradução definitva. Ou ao menos a própria tradução. Que os olhares sobre essas pessoas - ainda que sejam aqueles da classe média encastelada em edifícios - ajudem a lhes dar a autonomia necessária para a escrita, de próprio punho, desses registros.
“Antônia brilha…”. Première no Fantástico (com perdão por Glória Maria)
“All you have to do is dream”, trailer de Dreamgirls

Ao telefone:
- Pois é, no sábado eu fui pro cinema…
- Foi ver o quê?
- Volver…
- Ah, tu ainda vai ver?…
- Putz…
Feliz de quem está por trás da paleta de cursos de especialização e mestrado profissional à disposição em todo lugar. Só eles mesmo pra darem conta do trânsito louco de informação - sobre a vida, sobre tudo - que circula por aí. E fazer disso algo vendável.
Confesso que me deixei seduzir. Curso uma singela pós em Teorias da Comunicação e da Imagem, como poderia estar - caso tivesse me graduado em outra área qualquer - pagando para estudar Gerenciamento Hoteleiro Emergencial com Ênfase em Processos Organizacionais Voltados à Otimização de Estoques de Colchas de Cama.
O que não é a multiplicidade de conhecimentos repassáveis, não é mesmo, minha gente?
Um dos nossos darlings nos bancos da universidade, o Anthony Giddens, se deleitaria em responder. “Num mundo guiado por sistemas peritos, urge o aparecimento de discursos de autoridade”, algo assim ele balbuciaria.
Ou seja, pra cada novo conceito sobre uma área qualquer da atuação humana - bolado por quem, dio mio? - um novo curso, de preferência carimbado pelo MEC, para explicá-lo.
É quando ingressamos no delicioso e cruel universo das expressões de domínio restrito. Nos último dias, me choquei tentando assimilar a melhor aplicabilidade da logística de interiores, fui alertado sobre o boom do gerenciamento de catástrofes e, por fim, dei-me conta do atraso de vida que é não saber que o hype mesmo é o tal mile high club - essa última, nada mais nada menos que a famosa “rapidinha” num avião.
O território do prazer também virou espaço de catalogação. Demora nada e estudaremos isso na faculdade.
É muita informação pra mim. É já que me matriculo numa reciclagem em gerenciamento de catástrofes. ![]()